domingo, 25 de setembro de 2011

EDUCAÇÃO A DISTANCIA - DESAFIOS

FORMAÇÃO DE PROFESSORES E A TECNOLOGIA
Rejane Klein
UNICENTRO
Letícia Chaves Laroca
UNICENTRO
Neste estudo procuramos mapear os discursos sobre a formação docente no que se refere à utilização das novas tecnologias para compreender quais identidades docentes se constroem quando se trata desta temática.
Sabemos que a expansão das tecnologias propõe novas exigências aos professores. Contudo, percebemos que ao falar sobre a formação docente em relação às novas tecnologias estabelece-se um perfil docente considerado ideal. Assim sendo, para demonstrar quais identidades docentes se criam nos discursos que tratam sobre as novas tecnologias elegemos os seguintes Natal Lânia Roque Fernandes (a), (2004, Olívia Paiva Fernandes (b) (2005) e Gilvan L.M. Costa (2005).
O objetivo do estudo é de refletir sobre o estado do conhecimento em Educação e Tecnologia em textos publicados por pesquisadores da área, a fim de apontar o modo como os docentes são representados nestes
textos. Pode-se perguntar o que se espera do profissional formado em educação? Nos discursos que circulam
nos textos como se representa os docentes que se utilizam do computador e da internet em na sua prática
pedagógica diária? Como se representam os professores que não possuem esse hábito?
A metodologia utilizada é a análise do discurso no viés foucaultiano trabalhando-se com os conceitos de
discurso e de enunciado. Foucault (2007, p. 43) diz que,
No caso em que se puder descrever, entre certo número de enunciados, semelhante sistema de
dispersão, e no caso das escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem,
correlações, posições e funcionamentos, transformações,) diremos, por convenção, que se trata
de uma formação discursiva.
A formação discursiva dá unidade aos enunciados em sua dispersão, no entanto, na descrição dos
discursos há que se observar o que Foucault denomina como regras de formação. De acordo com o autor,Chamaremos de regras de formação as condições a que estão submetidos os elementos dessa
repartição (objetos, modalidade de enunciação, conceitos, escolhas temáticas), as regras de
formação são condições de existência (mas também de coexistência, de manutenção, de
modificação e de desaparecimento) em uma dada repartição discursiva. (FOUCAULT, 2007, p.
43).
Foucault explica como funcionam tais regras, utilizando como exemplo o discurso da psicopatologia situado no século XIX. Naquele momento a área apresentava uma nova forma de exclusão e inserção do louco nos hospitais psiquiátricos, além disso, permite percorrer as teorias da psiquiatria das pesquisas atuais às mais distantes. Conforme o autor “[...] os objetos dos quais a psicopatologia se ocupou, desde essa cesura, são muito numerosos, em grande parte muito novos, mas também bastante precários, cambiantes e condenados, alguns deles a um rápido desaparecimento: [...] As regras de formação apontam para a condição de existência de certos discursos, que afirmam certas verdades estabelecendo padrões, conceitos, concepções que podem ser aceitas, redefinidas, contestadas, suprimidas fazendo surgir uma série de objetos. Em relação ao discurso veiculado pelos textos sobre a formação de professores e a tecnologia nota-se que buscar estas regras permite-me indagar as condições de existência do discurso das novas tecnologias na educação, os modos como fazem aparecer novos objetos e sujeitos.
No discurso sobre as novas tecnologias, a mídia pode ser considerada como superfície de nascimento
desse discurso através dos quais surgem novos objetos, saberes e práticas. É a partir deles que os/as
professores/as e seu fazer são nomeados, classificados, distinguidos, situados, incluídos e excluídos. A seguir apresenta-se os estudos mapeados.
Natal Lânia R. Fernandes (a) (2004) desenvolveu uma investigação sobre o modo pelo qual os/as
professores/as constroem os saberes docentes num curso de informática da educação. Para a autora, a informática exige habilidades e conhecimentos específicos, assim cabe ao docente “[...] dominar as funções básicas da microinformática, planejar e organizar aulas utilizando recursos da informática e realizar a transposição didática dos conteúdos a serem ensinados por meio do computador”(2004, p. 18). Para isso, precisa desenvolver algumas competências. Torres (1999, apud Fernandes) elenca as seguintes, Abrir-se à incorporação e ao manejo das novas tecnologias tanto para fins de ensino em aula ou fora dela como para sua própria aprendizagem; Informar-se regularmente através dos meios de comunicação e outras fontes de conhecimento a fim de compreender os grandes temas e problemas que se estabelecem no mundo contemporâneo; preparar seus alunos para selecionar e utilizar criticamente a informação proporcionada pelos meios de comunicação de massa; desenvolver e ajudar os alunos a desenvolver qualidades consideradas indispensáveis para o futuro, tais como criatividade, receptividade a mudança e a inovação, versatilidade noconhecimento, antecipação e adaptabilidade a situações, capacidade de discernimento, atitude crítica, identificação e solução de problemas.
Como se vê, o/a professor/a desejável é aquele/a que se propõe a aprender sempre, possui muitas
qualidades e deve desenvolvê-las nos/as alunos/as. Fernandes, N.L.R. (2004) diz que, embora se desenhe esse perfil para o/a professor/a, nos diversos textos e políticas públicas não se diz como e com qual currículo é possível desenvolvê-lo.
No perfil desenhado acima, são colocadas as qualidades para tornar-se o/a profissional do século XXI.
Contudo, durante os cursos de informática os/as cursistas experimentam diversos sentimentos e dificuldades diante das novas ferramentas. Segundo a autora, A aprendizagem em informática, por ser algo novo, que não faz parte usualmente dos conhecimentos profissionais docentes adquiridos na formação inicial e que não é algo com o qual todos os professores se identifiquem aparentemente num primeiro contato, parece requerer um esforço maior de sua parte. É como se o professor estivesse reiniciando o aprender a ensinar com um novo recurso, que não fazia parte de seu fazer pedagógico (FERNANDES, 2004, p.66).
A informática é um conhecimento que não fazia parte do repertório de conhecimentos dos/as profissionais investigados pela autora. Assim, durante os cursos os/as docentes-aprendizes são colocados diante de si mesmos e percebem os conhecimentos que lhes faltam, apresentando sentimentos de insegurança, desorientação e agitação. O processo vivenciado é muito semelhante aos dos experimentados pelos/as alunos/as e nesta situação os/as professores/as sentem-se como alunos/as e “o sentir-se aluno parece suscitar uma reflexão sobre a relação dos professores com os alunos, uma vez que o comportamento apresentado pelos docentes, no momento da aprendizagem, assemelha-se ao dos alunos, quando estes se apresentam ‘meio agitados’ e precisam de orientação dos professores”(FERNANDES42 a, 2004, p. p. 64-65). Diante da nova ferramenta, o/a professor/a experimenta sentimentos que são comuns aos de seus alunos/as.
Embora os cursos de informática estejam ocorrendo em vários Estados do país, um número xpressivo de
professores/as ainda não possui esta formação. A autora menciona que dos 60 entrevistados, 48 nunca haviam manuseado o computador, o que corrobora outras pesquisas, as quais apontam que boa parte dos docentes ainda não estão familiarizados com estas ferramentas.
42 Natal Lânia Roque Fernandes (2004) será referenciada como Fernandes (a) e Olívia Paiva Fernandes (2005) será referenciada comoFernandes (b), para efetuar a distinção entre as autoras.

Além de experimentar diversos sentimentos e dificuldades diante do computador, no exercício do magistério,
os/as docentes se deparam ainda com questões relacionadas à profissionalização, dentre elas a desvalorização salarial. Conforme Fernandes, N.L.R., A falta de tempo do professor para a capacitação - devido à sobrecarga de atividades - como expressou a professora, relaciona-se num sentido à desvalorização salarial do profissional docente, [...] que o obriga muitas vezes a exercer seu ofício em diversas escolas e/ou com diversas turmas. Dificulta-se assim o seu desenvolvimento profissional, no sentido de continuar
a sua aprendizagem a partir de outros cursos (FERNANDES a, 2004, p.87).
Na constituição da identidade do profissional que precisa saber usar as novas ferramentas, o/a
professor/a convive com questões pessoais (medo, resistência, falta de oportunidade, angústia), problemas
relacionados à falta de infra-estrutura nas escolas, que se estende aos laboratórios de informática, pois falta
investimento, atualização e manutenção dos mesmos, carência de apoio técnico, ausência de programas e
softwares educativos, entre outros fatores. Pode-se dizer que a informatização das escolas traz novos
problemas, pois além daqueles que existiam, surgem outros como a manutenção das máquinas, a capacitação
docente em informática, a disponibilidade de um técnico para acompanhar professores/as e alunos/a. Na
construção da identidade do/a docente na era da tecnologia, novas exigências se apresentam, somando-se aos problemas e dificuldades já existentes.
Olívia Paiva Fernandes (2005), no artigo “O computador/internet na formação de pedagogos: um
diálogo possível?” investigou como estudantes do Curso de Pedagogia utilizam o computador e a internet em
sua formação inicial. Relatou ainda o que os/as futuros/as pedagogos/as dizem destas ferramentas. “[...] as
alunas do Curso de Pedagogia, ao falarem sobre suas relações com o computador, construíram sentidos para uso
(não-uso) desta ferramenta. Do ‘bicho de sete cabeças’ ao ‘tudo de bom!’ elas percebem a influência que o
instrumento exerce sobre sua vida e formação inicial” (FERNANDES (b), 2005). De acordo com a autora, o
computador faz parte da vida de 98% das entrevistadas, mas está chegando à universidade por meio dos/as
alunos/as. Além disso, sobre a possibilidade que esta ferramenta pode trazer para a Educação Básica a autora constatou que, [...] as alunas denunciaram a ausência de preocupação do curso em relação ao trabalho com este instrumento e ressaltaram que é urgente que os docentes e a coordenação se voltem para
este fato. Entretanto ao discutirmos acerca dos seus possíveis usos na Educação Básica, as
alunas demonstram uma resistência no trabalho com o computador/Internet, salientando que ele
pode inibir o raciocínio infantil. A necessidade do computador se faz urgente para elas, alunas de uma graduação, mas é ‘perigoso’ para as crianças, indicando a necessidade de uma série de
cuidados.
O/a futuro/a pedagogo/a vê o computador, segundo a autora, como uma ferramenta importante na
formação individual, mas não atribuem a mesma importância ao instrumento quando se estabelece a relação
com a sala de aula. Embora Fernandes, O. P. não se refira aos professores/as formados, já estão sendo
construídas representações sobre como estes profissionais poderão agir num futuro próximo, quando estiverem em sala de aula.
Gilvan Luiz Machado Costa (2005) realizou uma pesquisa sobre a interferência que o uso do
computador e da internet tem sobre a cultura e profissionalização de professores/as de matemática que atuam
numa escola municipal de Tubarão, S.C. No texto, aparece uma preocupação diferente em relação aos
anteriores, pois o autor procura mostrar as transformações pelas quais os/as professores/as passam quando
começam a utilizar o computador. Para ele “A criação de redes colaborativas comunicacionais de autoformação compartilhada pode permitir que o professor se identifique com o sujeito global que assume sua formação como um processo interativo e dinâmico” (COSTA, 2005). O sujeito global aproxima-se do perfil profissional apresentado por Fernandes, N.L.R. (2004) como o/a professor/a apresentado como receptivo para aprender, procurando informar-se constantemente. Isso pode ser observado na descrição que Costa, G. L. M, (2005) faz de uma das professoras. Conforme o autor “a Internet contribuiu para que Cida participasse de um movimento de formação com pesquisadores e professores escolares de Portugal. Teve acesso a textos e experiências de professores portugueses que vivem problemas semelhantes aos seus.” (COSTA, 2005). A experiência vivenciada teve reflexos na vida pessoal e profissional, pois “[...] ao longo do caminho vivido no grupo, a professora escolar estabeleceu maiores e melhores interações visando potencializar sua prática pedagógica” (COSTA, 2005). “Mesmo não conhecendo todos os recursos desse software, Cida ousou em utilizá-lo com os estudantes e se surpreendeu com performance destes” [...] (COSTA 2005).
Para o autor, a professora modificou sua prática e a cultura em que vivia, rompeu com a maneira como
lecionava anteriormente e passou a “ousar”. [...]” (COSTA, idem).
Nos textos dos autores apresentados, observam-se enunciados que acabam constituindo identidades
docentes diversas. Na pesquisa de Fernandes, N. L. R apresenta-se o perfil do docente desejado para a
sociedade do século XXI. Este perfil é construído nos documentos que tratam das políticas públicas. A autora tece um olhar crítico, apontando que os/as professores/as apresentam suas fragilidades e limites e estão cientes das dificuldades relativas à profissão e aos investimentos públicos na escola ao construírem seus saberes nas aulas de informática. As identidades que se constituem no texto de Fernandes, N. L. R. são as dos sujeitos que procuram enfrentar suas deficiências e limites apesar da desvalorização docente e da falta de investimentos na escola pública, colocando-se como alunos/as diante das novas ferramentas.
No discurso da autora Fernandes, O. P. é apresentado um/a docente que resiste à utilização desses
instrumentos na sala de aula.
No texto de Costa, G. L. M. está exposta uma narrativa de como o curso de informática modificou a
prática e a cultura de uma docente. A professora, sujeito da pesquisa, mesmo sem conhecer profundamente
alguns programas, rompeu com a maneira como ensinava e passou a utilizar o computador e a internet nas aulas e na própria casa. Aqui pode se retomar o enunciado do início desta tese: A professora Cida, assim como a mulher conectada ao Universo On-Line, tem toda a informação do mundo em seu quarto. Essa mulher-docente é apresentada como um sujeito aberto para a aprendizagem, não se intimida com as novas tecnologias e se coloca como aprendiz juntamente com seus/suas alunos/as. Cida é apresentada como um sujeito ousado que vê a informática como uma ferramenta potencializadora da prática pedagógica.
A formação docente e os debates em torno da profissionalização, além de apresentarem as exigências
que são postas para os/as profissionais do ensino, criam representações sobre os/as professores/as,
posicionando-os de diversos modos. Assim, observa-se que a identidade docente é construída, criando-se
diversas representações, dentre elas ser: vocacionado/a, virtuoso/a, moralmente correto/a. Outro aspecto
relevante é a feminização do magistério. A essas questões somam-se ainda os aspectos profissionais, como a
interferência do Estado na organização desse grupo como categoria autônoma. A tudo isso, agregam-se novas demandas, como as exigências postas pela proliferação das novas tecnologias.
Na era das novas tecnologias, é colocada para a escola e para o/a professora/o a demanda de difundir a
nova cultura, mas, para isso, é necessário que ele/a se capacite, aprenda a dominar a novas ferramentas,
utilizando-as nas aulas e em casa, transforme a máquina num instrumento de trabalho, inove a prática
pedagógica. Para difundir a cultura das novas tecnologias, o/a professor/a é mostrado/a na posição de aluno/a, como vimos com Fernandes, N. L.R. (2004); de inovador/a, audacioso/a e aberto/a para aprender como aparece no estudo de Costa. G. L. M. (2005); e de atrasado/a ou talvez reacionário/a, como aponta o estudo de Fernandes, O. P. (2005). Nesses textos emergem enunciados constituindo um discurso que gera outras identidades as quais convivem com as anteriores.
A desvalorização profissional, a sobrecarga de trabalho, os recursos limitados são dificuldades que na
atualidade, convivem com as novas exigências colocadas pela inserção do computador e da internet nas escolas.
Pode-se dizer que a construção de uma sociedade tecnologizada passa pela formação do/a professor/a também tecnologizado/a.
Na atualidade, além da formação acadêmica exige-se que o/a professor/a se capacite em informática,
pois os computadores e a internet estão chegando às escolas.

Referências Bibliográficas
COSTA, Gilvan Luiz Machado. A mudança da cultura docente em um contexto de trabalho colaborativo de
introdução das tecnologias de informação e comunicação na prática escolar. Disponível em www.
anped.org.br/reuniões/28/textos/gt08/gt091260int.rtf. Acesso em 15/02/2008.
FERNANDES(a), Natal Lânia Roque. Professores e computadores navegar é preciso! Porto Alegre: Mediação,
2004.
FERNANDES(b), Olívia Paiva. O computador na formação de pedagogos: um diálogo possível?Disponível em
www.anped.org.br/anpedgt16/16640int.rtf. Acesso em 15/02/2008.
FOUCAULT, Michel. Arqueologia do saber. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007, p. 43.

TEXTO APRESENTADO NO LAGE - UNICAMP/2011 ( LABORATÓRIO DE GESTÃO ESCOLAR)

3 comentários:

  1. Ao colocar esse texto no blog, escolhi por ser interessante e por ter assistido a apresentação da autora no Curso LAGE da Unicamp e pensei que poderá ser interessante às pessoas que se interessam pela educação a distancia em verificar que há inúmeras pessoas realizando pesquisas e buscando saídas para que este tipo de ensino seja de qualidade e perca o esteriótipo de ensino fácil e sem compromissos.

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  2. Rosana: Muito interessante seu texto, boa escolha!
    Nós que fazemos parte do cotidiano das escolas podemos perceber quanta dificuldade muitos de nossos professores tem para lidar com as ferramentas tecnológicas, infelizmente quem mais perde com isso são nossos alunos.
    Prof. Rita

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  3. Roasana, ótimo texto! ao ler fiquei surpresa no paraǵrafo:
    "A autora menciona que dos 60 entrevistados, 48 nunca haviam manuseado o computador, o que corrobora outras pesquisas, as quais apontam que boa parte dos docentes ainda não estão familiarizados com estas ferramentas."
    Em plena era da informatização, internet, geração Z, século XXI etc., é difícil imaginar que há um índice tão alto de profissionais na área da educação que não se interessam em se qualificar. Desculpas para "falta de tempo" não é um motivo plausível! O profissional tem que fazer a diferença, tem que inovar, ser ativo e pró-ativo.

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